Escolha uma Página

Blog

Para a maioria dos brasileiros, Curitiba é uma cidade famosa pelo frio e por sua diferenciada infraestrutura. Sua arborização, integração do transporte público e disponibilidade de serviços em geral tornam a cidade uma das principais referências em desenvolvimento no Brasil. Mais recentemente, Curitiba se viu ainda em meio a uma nova reputação: a “República de Curitiba” passou a ser o centro de uma das maiores batalhas jurídicas, políticas e criminais da história do país.

Porém, de forma planejada, Curitiba tem buscado se tornar respeitada em outro ponto: Tecnologia da Informação – TI.

Embora a cidade tenha demorado a perceber os benefícios de ter uma indústria de TI forte – o que faz com que as primeiras iniciativas coordenadas ainda sejam muito recentes –, já é possível fazer algumas reflexões acerca de seus pontos positivos e negativos.

Em 2017, o governo municipal alavancou o programa “Vale do Pinhão”, buscando incentivar a inovação na capital. Em dois anos, apesar de o programa ainda dar os primeiros passos no alcance de seus objetivos, já é visível o amadurecimento do ecossistema de tecnologia local, com algumas iniciativas projetando-se nacionalmente.

As empresas de tecnologia curitibanas, porém, ainda não possuem uma identidade coletiva, por assim dizer. Os indícios iniciais apontam que as startups locais devem seguir o estilo catarinense (referência em inovação no Brasil), focando em soluções de software sem necessidade de matérias-primas físicas / industriais.

Curitiba pode não competir com Florianópolis em termos de belezas naturais, mas pode comprar uma bela briga com qualquer cidade brasileira ao se posicionar como referência em qualidade de vida. A cidade é arborizada e possui boa infraestrutura. Possui mobilidade muito superior a de Florianópolis e mais opções de restaurantes/ entretenimento, ao mesmo tempo em que oferece uma fuga do ambiente acelerado e confuso de São Paulo. Também é geograficamente privilegiada: está a poucas horas tanto dos litorais paranaense e catarinense, e muito próximo do campo.

Mão-de-obra qualificada também não falta na região. UFPR, UTFPR, UP, FAE, PUC, são algumas das universidades que fornecem profissionais para as empresas da região. A cidade abriga diversas universidades conceituadas, podendo ainda se consolidar como polo para o restante do estado.

As raízes históricas para o desenvolvimento de um grande centro de inovação tecnológica existem. De fato, em sua história Curitiba já viu duas empresas locais de tecnologia atingirem o cume do sucesso empresarial: abertura de capital na Bolsa de Valores do Brasil. Bematech e Positivo Informática são precursoras do movimento atual e podem atestar pela capacidade da cidade em gerar relevantes negócios de TI. Uma nova leva também já tem se destacado: Ebanx, Pipefy, Olist, Madeira Madeira começam a ser referência entre startups.

O governo municipal também tem dado seus primeiros passos buscando incentivar o empreendedorismo tecnológico, mas ainda faltam importantes passos. Em Santa Catarina inteira e em São José dos Pinhais – logo aqui ao lado – o ISS (Imposto sobre Serviços, um imposto que incide diretamente no faturamento das companhias) tem alíquota de 2% para empresas de tecnologia, em qualquer lugar. Em Curitiba, o padrão é 5%. A Junta Comercial também impõe certas restrições arcaicas, contribuindo para deixar a atividade de empreender no Brasil ainda mais burocrática e complexa.

No geral, o sentimento é de que Curitiba é uma cidade com grande potencial. A vontade de criar o polo existe e os primeiros resultados estão logo ali. À medida que a primeira leva de startups citada for se encaminhando – sejam criando casos de venda, abertura de capital ou simplesmente de grande sucesso – o histórico deve intrigar mais empreendedores e potenciais empreendedores a buscar entender por que Curitiba tem dado certo. Nesse momento, será crítico que já existam novas empresas prontas para assumirem o posto de “próxima geração”, mostrando que, tal qual nos Estados Unidos e em Santa Catarina, a geração de valor por meio de empresas de TI na região é continua.

Porém, para que a excelência seja alcançada, cada agente envolvido ainda precisa dar um passo além. Os empreendedores, investidores e mentores de tecnologia da região precisam trabalhar mais em conjunto, trocando conhecimentos e fortalecendo o grupo. A próxima geração de startups de sucesso só existirá se existirem empreendedores bem preparados e investidores cientes de sua atuação. Nessa linha, algumas iniciativas louváveis até estão sendo realizadas, com líderes de Endeavor, Jupter, FIEP e Curitiba Angels, ainda sem o mesmo ritmo e dinamicidade do visto em lugares como a ACATE de Florianópolis.

Do lado governamental, a simplicidade deve ser objetivo maior. O programa “Vale do Pinhão” até estabelece que startups estabelecidas na região alvo do programa, e que se enquadrem em uma série de requisitos, terão benefícios como o ISS de 2%. Mas não é prático. O benefício deve se estender para todo o município e deve ser simples de enquadrar para uma empresa de tecnologia. Enquanto houver burocracias, a cidade estará um passo atrás dos “concorrentes” catarinenses.